Nos últimos tempos tenho sido confrontada com a morte de pessoas que me são queridas. Sim, porque mesmo as que já cá não estão, ainda me são queridas. Muito.
A morte é uma lição de vida que a maior parte de nós não aprendeu. Essa lição tem um primeiro ensinamento fundamental: a aceitação.
Mais do que recorrer ao argumento da inevitabilidade, essa lição diz-nos para olharmos a morte de frente e recebê-la como parte da vida.
Com isto no coração, abraçar a morte é menos negro.Um “adeus”, pode passar a ser “um até já”.
Torna-se mais simples não nos deixarmos levar pela melancolia ou pela angústia, porque acima de tudo, nós que cá ficamos, ainda temos o dom da vida, ainda temos pessoas que nos são queridas e outras que precisam de nós. Deixar de viver é uma falta de respeito para com todas e, necessariamente, motivo de futuro arrependimento quando também estas se forem.
O ser humano tem uma capacidade inata de vencer, de transpor a tristeza e fazer triunfar a vida , simplesmente, a falta de aceitação da morte, faz com que, frequentemente, esse percurso seja demasiado longo e penoso, sem qualquer espécie de benefício ou bondade para ninguém.Vencer a dor da perda não é falta de reverência aos mortos, é simplesmente honrar (-lhes) a vida.
Quando acompanhamos alguém que, por acidente ou doença, se vê obrigado a encarar a morte de frente, mais do que tudo, temos a obrigação de vencer essa tristeza e, ao mesmo tempo, ajuda-lo a encarar o fim.
Não vale a pena esconder a cabeça na areia, da mesma maneira que não vale a pena rodearmos os dias que lhe sobram de lágrimas, caras feias e melancolias.Acredito profundamente que quem se rodeia de morte, morre mais depressa. Assim, como também acredito, que quando a morte é tabu, é mais dificil de encarar para os que cá ficam.
Já se colocaram na pele daquele que está a morrer? Eu já tentei, e tenho a certeza que a última coisa que gostaria era de passar os meus últimos dias rodeada de tristeza. Gostaria de ver caras alegres, de falar sobre a minha doença sem receios (porque isso ajuda e é preciso), de chorar se me apetecesse, mas logo de seguida, ouvir uma anedota, meditar, ler um livro, ver um filme, passear, ver e rever a minha família, os meus amigos e os lugares de que mais gosto. Tudo menos lágrimas, olheiras, lutos prematuros ou palavras de coitadinha.
Não perdi ninguém.
Aqueles que já foram, guardei-os no coração com carinho e saudade. Destes, não tenho uma única fotografia em casa. Entendo que não preciso delas para os recordar e não preciso deles para ficar triste com o pesar da lembrança. É um louvável o que aprendi com a morte e a vontade e me matar, aprendi a admirar imensamente a vida, e os belos exemplos de força de vontade que vejo todos os dias.
Se você que está lendo já pensou nisso também ou pensa ainda eu envio-lhe um pensamento, uma energia talvez, de força, de valentia, de carinho, de alegria, de gargalhadas, de sorrisos, de vozes de crianças, de coragem na humilhação da doença; de um pôr-do-sol, de uma história de amor, de uma história de luta, de um coração de heroi, de um mar azul até perder de vista, de um balançar das árvores, de um cheirinho a terra molhada depois de uma chuvada, de um quentinho de uma lareira, de um aconchego de castanhas assadas dentro das mãos, de um abraço das filhas, de um beijo da mulher, de uma canção preferida, de ajuda na dor, de um mergulho na piscina num dia quente de verão, de uma passagem de um livro inesquecível e no fim de tudo, um xi-coração apertado de uma sobrinha.


