"O tédio, a frustração, a ironia de pensar que não se pensa em mais nada, que tudo é vazio, que o ser não é ser, nem estar, nem esconder, nem morrer.
O sentido muda e já não reconheço as palavras que proferi num acto contínuo de desespero. Fujo de mim, sabendo que não me posso esconder num qualquer beco escuro da minha memória. Quero chorar e não consigo, as lágrimas não saiem, mordo o lábio, o sabor do sangue invade-me a boca. "As lágrimas têm o sabor do sangue" mas são invisíveis e incontroláveis. A minha face está molhada com lágrimas que ninguém vê, que ninguém pode consolar. Riu-me estéricamente para disfarçar a angústia, para que eu própria não possa encontrar essa angústia.
Não tenho sucesso, encontramo-nos, casualmente, numa rua cheia de gente, onde ninguém se conhece, onde ninguém troca um olhar, uma palavra amiga, uma inspiração...
Descubro, finalmente, que não me posso esconder de mim mesma. É doloroso o reencontro de dois seres que nunca se separaram, que nem sequer são dois, mas apenas um. E choro convulsivamente lágrimas de cera para sempre esculpidas na minha face."
Por Ingrid Castilho^^ Eu!