quarta-feira, 26 de março de 2008

Denuncie. Não tenha medo


Todo mundo assistiu a este horror. Ela tem 12 anos, é esmirrada, e dela só se conhecem detalhes do corpo. Detalhes como a língua picotada por um alicate de unha, dedos esmagados nas portas e artelhos sem unhas, amassadas a martelo. Lucélia foi resgatada das garras de Sílvia Calabrese Lima, "empresária" de Goiânia, mãe de três filhos e especialista em "adotar" meninas para "ajudar" e para "brincar" com o filho pequeno. Na verdade, a especialidade desta mulher é torturar. Agora, está presa, fazendo cena para as câmeras, curtindo seus momentos de fama torta e dando a entender que é vítima, que está marcada para morrer e que não é tão ruim como parece.A gente sabe que pessoas negligenciadas e violentadas tendem a repetir o comportamento. Sílvia foi criança de abrigo, terminou adotada e, parece, teve sorte, é bem-sucedida e tem um casamento de 20 anos, além de ter-se tornado mãe. O caso, na verdade, é um grão de areia num deserto maior que o Saara e veio a furo porque alguém se sentiu importunado com o que ouvia ou, quem sabe via, e denunciou. Não me iludo que esse pavor acabe. A humanidade é incansável em produzir maus e loucos.A atitude da mulher não me surpreende. Muito mais me atordoa a atitude do marido, um banana ou um conivente, afinal? E a mãe adotiva, que morava com a perversa e jura que não sabia das maldades executadas a quatro mãos, já que a empregada também se locupletava com as torturas? Essas pessoas, que se dizem inocentes, merecem também uma boa punição.As marcas físicas e psicológicas em Lucélia não vão sair com um ursinho de pelúcia presenteado para ela aparecer na tv ou com uma bicicleta novinha em folha. Eu nunca vou esquecer a imagem da língua da menina picotada, para sempre aleijada.Desgraçadamente, os pais continuam entregando filhos para gente "boazinha" cuidar, dar colégio, "uma vida melhor". Não tem bolsa família que chegue a tempo com a falta de suporte às famílias, de uma política eficaz de atendimento e educação a pais que, sobrevivendo a míngua e botando filho e mais filho no mundo, continuarão entregando suas meninas para servir de empregadinha, quando não escrava, para gente doente e má como Sílvia.O que faz o governo, nesse caso? Nada. Talvez não tenha sistema ou regime que consiga botar este trem nos trilhos. Mas cada um de nós pode, sim, ficar atento e fazer sua parte. É só ter ouvidos e olhos bem abertos para ver o que acontece nos condomínios de luxo, na casa ao lado, no apartamento daquela família simpaticíssima que seguidamente troca de babá e que dá desculpas quando a "menininha que veio fazer companhia para as crianças" passa dias sem aparecer. Olho vivo, gente.Disque-denúncia neles.


By.Oficina da palavra.